domingo, 21 de março de 2021

Minari - simplicidade e sutileza

 


Minari é um drama familiar, inspirado na infância do próprio diretor, Lee Isaac Chung. No filme, acompanhamos a história de uma família de imigrantes coreanos que já moravam na Califórnia quando Jacob, pai da família, decide se mudar para o Arkansas, onde comprou uma fazenda e sonhava prosperar plantando vegetais coreanos. Diante da insatisfação da esposa e da doença do filho, Jacob se vê entre o desafio de insistir no seu sonho ou manter o casamento. Cheia de detalhes sutis que permitem perceber as várias camadas que constituem o filme, Minari traz à tona um debate sobre barreiras culturais, xenofobia, sonho americano, raízes e família.

Com uma construção lenta dos arcos dos personagens, o filme ganha dinamismo e vitalidade quando a avó materna das crianças chega da Coréia para morar com a família. Interpretando uma avó completamente fora do padrão, Youn Yuh-jung injeta boas doses de humor e dramaticidade com uma atuação que poderia ser classificada como uma das mais impressionantes da temporada, o que faz dela uma favorita ao Oscar de melhor atriz coadjuvante, ao lado de Maria Bakalova de Borat 2.

Outro destaque do filme é o David, criança interpretada de maneira carismática pelo destaque em interpretação infantil Alan Kim.

MINARI é um belo filme e concorre ao Oscar de melhor roteiro original, melhor ator, melhor atriz coadjuvante, melhor trilha sonora, melhor direção e melhor filme.

Os 7 de Chicago - a justiça como ferramenta de perseguição política

 


A justiça sendo usada como instrumento de perseguição política.

A promotoria manipulando informações de forma combinada com o juiz, sob coordenação dos serviços de inteligência dos EUA.

Todas as solicitações e petições da defesa sumariamente negadas pelo juiz.

Réu sendo impedido de exercer seu direito de defesa

Um juiz manifestamente parcial julgando um caso de grande repercussão política

Não, eu não estou falando do julgamento do Lula pelo juiz Sérgio Moro.

Estou falando de “Os 7 de Chicago”, uma das duas grandes apostas da Netflix para o Oscar 2021.

O filme é um drama de tribunal, baseado em fatos reais, que mostra como foi manipulado o julgamento de 7 líderes das manifestações contra a guerra do Vietnã, em Chicago no ano de 1968, durante a convenção do Partido Democrata. É dirigido e roteirizado por Aaron Sorkin e conta com um elenco de peso. Se houvesse no Oscar uma estatueta para melhor elenco, certamente venceria.

Interessante notar que durante o julgamento, um membro do "Panteras Negras" que está sendo julgado sem a presença de um advogado, é orientado ao pé do ouvido por outro companheiro do movimento e durante o julgamento chega a notícia do assassinato deste companheiro. Pode passar despercebido para a maioria das pessoas, mas este pantera negra assassinado é o Fred Hampton, líder do movimento em Chicago e personagem principal de outro filme que também concorre na categoria principal do Oscar chamado "Judas e o Messias Negro".

Com um final apoteótico, daqueles de levantar quem está cochilando, foi indicado para as categorias de melhor filme, roteiro original, ator coadjuvante, melhor edição, fotografia e canção original.

Nomadland - uma coleção de acertos




Quem nunca dormiu assistindo um filme, mesmo se tratando de um filmaço? Pois é, a primeira vez que assisti esse filme eu cochilei muito e a experiência foi apenas regular. Talvez por não oferecer a estrutura clássica de três atos e se parecer um pouco com um documentário, o início pode parecer um pouco enfadonho. Mas da segunda vez que assisti a experiência foi tão boa que despertou vários sentimentos que só um grande filme consegue despertar. Dirigido pela Chloé Zhao, favorita ao Oscar de melhor direção, o filme põe o dedo na ferida do sistema capitalista, mostra o drama das pessoas que vivem do subemprego na maior potência econômica do planeta e acompanha uma comunidade de nômades contemporâneos. O filme é uma espécie de coletânea de relatos centralizados na personagem interpretada de forma impecável pela Frances McDormand. No seu veículo, que lhe serve de casa, ela percorre o país a procura de bicos pra sobreviver e nesta jornada ela encontra várias pessoas que vão lhe contando seus dramas, suas alegrias, suas frustrações, seus desencantos e seus desafios. Numa atitude corajosa, a diretora centra sua atenção na atuação de Frances McDormand, chama apenas um ator coadjuvante e distribui todos os diálogos e monólogos entre pessoas comuns, o que o deixa muito parecido com um documentário. Mas a força do texto é tão grande que, apesar de lembrar um documentário, o filme emociona, além de fazer refletir e estimular o debate sobre as consequências da exploração cruel da força de trabalho em um sistema capitalista. A fotografia? Meu Deus do céu, que fotografia maravilhosa! A trilha sonora é irretocável. E já que gosto de apostar nas categorias do Oscar, podem anotar aí, este filme será o vitorioso em melhor roteiro adaptado, melhor direção, melhor fotografia e melhor filme (se perder será para Judas e o Messias Negro), com chances ainda para melhor atriz e melhor trilha sonora. Na minha opinião este filme é uma coleção de acertos. Vale a pena assistir!

Soul - um filme pra refletir e pra se divertir (escrito em 05 de março de 2021)

 





Se você quiser apenas se divertir, “Soul” é uma excelente alternativa. Mas se você quiser um filme que te faça refletir sobre seus valores, sobre o que tem feito com sua vida e sobre o que vem depois, “Soul” também é uma das melhores opções que o cinema ofereceu nesta temporada.

Este promete ser uma das poucas barbadas das premiações na categoria de melhor animação e com chances, inclusive, de indicação para melhor filme no Oscar 2021.
É a história de um professor de música que vive uma rotina diferente daquilo que sonhava fazer. Surge então a oportunidade de realizar um grande sonho e no dia em que ele iria realizar este sonho, acontece um acidente banal e ele morre.
O que acontece a partir da sua morte, vai te fazer pensar sobre muitas coisas que tem feito ou que tem deixado de fazer, das fragilidades que te imobiliza e da coragem que guarda escondida em algum lugar

Obs: Soul não foi indicado à melhor filme, mas foi indicado pra melhor animação, melhor trilha sonora e melhor som


Ontem levou o Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante, mas isso é muito pouco para um filmaço como esse. “Judas e o Messias Negro” é uma aula de como colocar na tela uma história baseada em fatos reais. O filme mostra um episódio que marcou a luta dos “Panteras Negras” contra a segregação racial nos EUA, quando o FBI infiltrou um negro na organização pra repassar informações que possibilitassem reprimir o movimento. O infiltrado acaba se aproximando e ganhando a confiança absoluta do líder do grupo em Chicago, Fred Hampton, interpretado de maneira impecável por Daniel Kaluuya que deve vencer também o Oscar de melhor ator coadjuvante, categoria que será uma das mais disputadas. O filme estava pronto pra ser lançado antes da temporada de festivais, mas numa estratégia que parece equivocada, a Warner só lançou o filme recentemente, a poucas semanas da cerimônia do Oscar. Se não fosse por isso, seria o favorito para levar a estatueta de melhor filme, mas ainda é muito provável que esteja na lista final de indicados. Se vai ganhar ou não, vai depender se a força da campanha nestas próximas semanas será suficiente pra superar os favoritos “Nomadland” e “Os 7 de Chicago”. Ainda falta assistir The Father, mas por enquanto considero “Judas e o Messias Negro” o melhor da temporada.

Obs: Conforme previsto, "Judas e o Messias Negro" foi indicado ao Oscar de melhor filme, roteiro original, melhor ator coadjuvante e melhor canção original.

Bela Vingança - um filme que vai dar o que falar (escrito em 27 de fevereiro de 2021)


 

“Promising Young Woman” ou “Bela Vingança” é o tipo de filme que te captura no início e você não desgruda da poltrona até o final. Comparar este filme com “Kill Bill” seria sacanagem e sem cabimento. Mas como o filme do Tarantino, este filme da Emerald Fennell fala da vingança de um mulher. Contudo, diferente do filme do Tarantino, a vingança não se dá com violência física, mas com intensa pressão psicológica sobre os machos escrotos que tentam se aproveitar de mulheres alcoolizadas ou sob efeito de algum tipo de droga. A história acompanha a Cassie, interpretada de maneira genial pela Carey Mulligan, que se finge de bêbada para se vingar deste tipo de homem, depois que sua amiga, ou para alguns sua namorada, Nina, foi violentada em um estupro coletivo cometido por colegas da universidade que se aproveitaram do fato dela estar bêbada. E ainda gravaram um vídeo que, na época, foi compartilhado com outras pessoas. O tempo passou e não houve punição pra nenhum dos envolvidos. Só não passou o desejo de vingança. Sobre a sinopse não dá pra falar mais do que isso, senão atrapalha sua experiência com todas as viradas que acontecem, principalmente nas sequencias finais. O filme tem pitadas de humor ácido que foram criticadas por alguns que acham que o assunto é muito sério pra ter qualquer toque de humor. Eu, particularmente, não acho que isto compromete a seriedade com que a diretora trata o machismo, o sexismo, a misoginia, o estupro, a impunidade e a vingança, além de tratar “en passant” da corrupção judicial e relacionamentos familiares. Tem grandes chances de ser indicado ao Oscar de melhor filme, direção, roteiro original e com certeza absoluta para melhor atriz. No Globo de Ouro, concorre a quatro prêmios.

Mank - uma obra de arte, mas com público restrito (escrito em 29 de dezembro de 2020)

 




Na minha opinião, ainda não será dessa vez que a Netflix vencerá o Oscar de melhor filme, mesmo com a possibilidade de até quatro indicações. Dentre essas possibilidades, o filme que mais gostei foi "Mank", que conta uma versão sobre o processo de criação do roteiro de "Cidadão Kane" de Orson Welles (1941), considerado por muitos como o melhor e mais revolucionário filme de todos os tempos. Pela versão contada por David Fincher, diretor de "Mank", o roteiro foi todo feito pelo protagonista do filme, Herman Mankiewicz, interpretado por Gary Oldman e não teria a participação criativa de Orson Welles. Além do roteiro de "Cidadão Kane", o filme mostra os problemas de Mank com a bebida e o que rolou nos bastidores da eleição para governador da Califórnia nos anos 30, quando o mesmo discurso reacionário e as fake news que se vê hoje foram responsáveis pela derrota do democrata Sinclair e eleição do candidato ultraconservador republicano, apoiado pelo império midiático da época. É muito fácil observar as semelhanças com o processo político atual no Brasil e em boa parte do mundo. Apesar do brilhantismo da obra, inclusive nos aspectos técnicos, o filme deve conquistar pouca gente além dos cinéfilos, já que pra aproveitar melhor a experiência é fundamental ter assistido antes "Cidadão Kane" pra entender todas as referências contidas em "Mank" e pesquisar um pouco sobre o contexto político. Pra quem tiver essa disposição, recomendo assistir "Mank".

Obs: A Netflix conseguiu duas indicações ao Oscar de melhor filme: "Mank" e "Os 7 de Chicago"

O Som do Silêncio (crítica resumida escrita em 28 de dezembro de 2020)




“O Som do Silêncio” é uma grande aposta da Amazon para a temporada de premiações do Cinema. O filme é um estudo de personagem que retrata o drama de um baterista que perde praticamente toda a audição e enfrenta o conflito entre aceitar a deficiência e reaprender a viver com as limitações impostas ou apostar tudo na tentativa de superá-la e voltar à condição anterior. É uma história de superação, mas não é piegas e tem um corte final muito potente. O Paul Raci tem atuação brilhante como ator coadjuvante o Riz Ahmed interpreta o protagonista de forma magistral. Certamente disputará a indicação nas categorias de melhor ator e melhor ator coadjuvante e, no Oscar, talvez seja favorito na categoria de som, já que propicia uma imersão sonora rara. Assisti, gostei e recomendo.

Obs: As previsões de indicações ao Oscar se confirmaram e ainda desbancou a outra aposta da Amazon (Uma Noite em MIami) e arrancou uma indicação para melhor filme.

terça-feira, 7 de julho de 2020

"É Tempo de Cuidar": Cáritas de Paracatu faz ação emergencial contra impactos sociais da pandemia

Com o objetivo de realizar ações solidárias emergenciais que possam minimizar os impactos sociais da pandemia entre os mais pobres, a CNBB e a Cáritas Brasileira lançaram a campanha “É Tempo de cuidar”,
Em Paracatu a campanha teve início na última sexta-feira(03/07), com a distribuição de cestas básicas aos catadores de materiais recicláveis.
As cestas foram adquiridas pela Cáritas de Paracatu junto à Cooperfam (Cooperativa mista dos assentados e agricultores familiares do noroeste de Minas) e montadas com produtos da agricultura familiar do município. As cestas são compostas de arroz agroecológico colhido no assentamento Jambeiro, abóbora, mandioca, batata doce, farinha de mandioca, rapadura, feijão, carne, fubá de milho, além de macarrão, extrato de tomate, café, óleo e bolacha, milho de canjica e material de limpeza.
Os recursos para a aquisição das cestas foram captados pela Cáritas Brasileira Regional MG junto à Adveniat, uma organização católica alemã de ajuda à América Latina.
A Cáritas Diocesana de Paracatu, em parceria com as paróquias do município, ainda distribuirá outras 140 cestas básicas, também montadas com produtos da agricultura familiar.

sábado, 29 de março de 2014

O Direitista Raivoso

Paulo Nogueira - jornalista Diário do Centro do Mundo

Eu não vou cumprimentar ninguém porque estou com raiva.
Então vamos direto.
Eu sou o DIRAI. O Diretista Raivoso.
Eu tenho raiva. Eu vivo da raiva. Eu morro de raiva.
Eu sou a raiva.
Odeio pobre.
Odeio negros.
Odeio cotas.
Odeio gays.
Odeio nordestinos.
Odeio comunistas.
Odeio petralhas.
Odeio esquerdopatas.
Odeio black blocs.
Odeio Cuba e Venezuela.
Odeio mais ainda o Brasil e os brasileiros.
Odeio o lulismo, o lulopetismo, o lulodilmismo, o bolivarianismo e o chavismo.
Odeio o socialismo.
Odeio ciclistas, ativistas, feministas.
Odeio o Bolsa Família, o Mais Médicos e todas as esmolas governamentais.
Odeio essencialmente tudo.
Amo algumas coisas, no intervalo de minhas sessões de ódio.
Amo a internet, porque me permite ir a sites e xingar, incógnito, as pessoas sem consequência nenhuma.
Amo trollar no G1 e no uol.
Amo a palavra mensaleiros.
Amo o Mainardi pai e o Mainardi filho.
Amo a Scheherazade, o Reinaldo de Azevedo, o Rodrigo Constantino, e comento sempre nos blogs dos dois últimos.
Amo o Lobão, amo o Gentilli, amo o Roger do Ultrage.
Amo, ainda mais, o Olavo de Carvalho, o pai de todos estes aí em cima, e carrego seu último livro como um mórmon carrega sua bíblia.
Amo a Veja.
Amo os militares, que trouxeram ordem e progresso ao Brasil quando o comunismo ateu rondava perigosamente o país.
Amo a tradição.
Amo justiceiros e justiçamentos.
Amo os cânceres que mataram o Chávez e quase mataram o Lula e a Dilma, e tenho a esperança de que no caso destes dois últimos o serviço ainda se complete.
Amo – acima de tudo – o ódio, o ódio, o ódio.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Campanha mundial da Cáritas debate caminhos do combate à fome

Adital
Com o objetivo de diagnosticar problemas e apresentar caminhos para colaborar com a erradicação da fome no mundo, a Cáritas Internacional promove a campanha "Uma família humana, alimento para todos”. Para isso, rodas de conversa e outros ambientes de debate serão articulados em comunidades de todo o mundo a fim de compreender as atuais demandas do tema e elaborar um documento propositivo.

Ao todo, as 164 organizações membros da confederação são convidadas a participar da campanha. "É uma profunda injustiça que mais de 800 milhões de pessoas passem fome no mundo. (...) Não passariam fome se houvesse uma maior igualdade na distribuição de riqueza", destaca o presidente da Cáritas Internacional, cardeal Oscar Andrés Rodríguez Maradiaga.

Brasil: debate sobre justiça social

No Brasil, o tema de campanha foi adaptado para "Uma família humana, pão e justiça para todas as pessoas”. Isso porque a campanha no país irá trabalhar na perspectiva da soberania alimentar e justiça social, questões relevantes para a realidade brasileira.

O método se constitui da promoção de um processo de escuta e diálogo junto a grupos comunitários e paróquias no intuito de identificar como as próprias pessoas desfavorecidas enxergam a questão da miséria no Brasil. Outro meio será fomentar o debate por meio das redes sociais da Internet.

A diretora da Cáritas Brasileira, Maria Cristina dos Anjos, afirma que são articuladas ainda parcerias com pastorais e movimentos sociais para replicar a proposta. "Já estamos em diálogo. Queremos animar a reflexão e cultivar essa mobilização para as pessoas olharem em seu entorno”, afirma.

Circulação de diagnóstico

A proposta é que a discussão se desenvolva no período de maio a outubro deste ano e, já no final de 2014, sejam apresentados os primeiros resultados da campanha. A expectativa é que um documento sistematizado com o resultado de todos esses diálogos seja lançado para toda a sociedade brasileira no primeiro semestre de 2015, encaminhado destacadamente para ampla circulação entre as instituições religiosas, públicas e privadas, o Estado e a sociedade civil organizada.

Além disso, a Cáritas Internacional deverá elaborar um Projeto de Lei sobre o direito à alimentação, que as organizações nacionais da confederação poderão incentivar cada governo a adotar. A entidade também pretende defender na Organização das Nações Unidas (ONU) sessão sobre o direito à alimentação, prevista para ocorrer em 2015 na Assembleia Geral da ONU.

A Rede Cáritas atua em 200 países, promovendo a participação cívica e a defesa em questões sociais e econômicas. Unem-se a isso ações para o desenvolvimento humano integral a partir de estratégias de desenvolvimento sustentável, abrangendo políticas climáticas, educação, capacitação e soberania alimentar.

Serviço

Doações online para o combate à fome podem ser realizadas continuamente através da Rede Permanente de Solidariedade no site da Cáritas: www.caritas.org.br/RPS. Mais informações:http://caritas.org.br/campanha-mundial.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O que têm em comum Facebook, Valesca Popozuda e Sheherazade?

RENATO ESSENFELDER

O Facebook inaugurou problemas novos na minha vida familiar. Minha filha, de dez anos, “ganhou” uma conta no site há cerca de seis meses. Fui contra. Fui voto vencido. O poderoso argumento de que “todas as amiguinhas têm” acabou prevalecendo.
Acontece que todas as amiguinhas estavam erradas. A internet potencializou pequenas rixas. Discussões que ao vivo duravam o voo de uma borboleta passaram a se cristalizar na tela, perenes. As meninas, ao vivo tão meigas, começaram a mostrar os dentes.
Já é difícil reconhecer meus próprios amigos – senhores responsáveis, casados, ponderados – por seus comentários nos redemoinhos da rede. Conheço-os bem e, graças a Deus, conheci-os antes da internet. Não tenho dúvidas sobre seu bom caráter, sua civilidade e disposição para o bem. Mas periga que quem olhe de relance um ou outro post isolado no maremoto virtual os considere extremistas, intolerantes, agressivos.
A internet parece extrair o pior de nós, muitas vezes, e as crianças, sempre tão sinceras, são ainda mais suscetíveis a exageros. O exemplo mais conhecido é o da área de comentários dos sites noticiosos. Faça o teste. Acesse uma notícia sobre tema polêmico – aborto, fé, consumo de drogas, violência urbana, sexualidade – e vá direto ao rodapé da página. Alguns comentários são de fazer perder a fé na humanidade.
Não sei o que se passa com pessoas que, na vida “real” (material ou física) são cordatas e aparentemente tolerantes e, na internet, disseminam o ódio. O extremismo está no ar. Outro dia, fiz um comentário sobre a superprodução “Beijinho no Ombro”, da funkeira Valesca Popozuda. Uma brincadeira sobre o raio-x antropológico que se podia extrair de versos como “Bateu de frente é só tiro, porrada e bomba / Aqui dois papos não se cria e nem faz história”. Nos comentários, o tom subiu: “não perca tempo com esse lixo”. “Música de pobre.” “Deveriam proibir essa ridícula de abrir a boca.” Atirada a primeira pedra, todos querem quebrar vidraças.
Fiquei incomodado. Meu comentário acabou, de certa maneira, cumprindo-se como uma maldição. Há, sim, um extrato cultural importante a analisar nesse megassucesso que prega a humilhação dos inimigos e a violência. Mas o que dizer dos que pregam a violência para calar a violência? Há justiceiros no mundo físico, prendendo pessoas a postes, e no mundo virtual, aplicando mordaças.
É isto afinal que têm em comum Valesca Popozuda, raivosos comentaristas-de-facebook, justiceiros e figuras como Rachel Sheherazade, a jornalista que defende a “legítima defesa coletiva”: o discurso da violência. A violência simbólica de um discurso que prega a intolerância, a discriminação, a coerção e o deboche.
Os adeptos dessa violência, tão comum nos fóruns da internet, segregam o espaço social entre grupos que consideram legítimos – “cidadãos de bem” (aqueles que concordam comigo) – e grupos marginalizados – os “cidadãos de mal”, dissonantes. Quem é apenas cidadão não tem espaço nessa história infantil e simplista.
Na era da internet, todos temos grande facilidade de veicular nossas opiniões sobre tudo. Mas isso não é necessariamente bom. Expressa sem ponderação nem responsabilidade, a opinião ligeira municia o preconceito. Há razões para que não possamos invocar a liberdade de expressão para propagandear ideário nazista, racista, terrorista.
Temos de ser melhores do que isso.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

O reacionário está na moda

Marcelo Semer

Não foi surpresa que logo após o comentário em que deu status de legítima defesa a justiceiros, a jornalista Rachel Sheherazade tenha tido a oportunidade de escrever artigo no espaço mais nobre de um grande jornal.
 
Foi vociferando a altos brados, contra todas as formas de ‘esquerdismo’, sem sutilezas nem decoros, que Reinaldo Azevedo ganhou o status de colunista nesse mesmo diário. 
 
Lobão foi guindado a uma revista semanal depois que minimizou a tortura dos anos de chumbo, desprezando quem se disse vítima por ter tido “umas unhazinhas arrancadas”. 
 
Diogo Mainardi pulou da revista para a TV a cabo, apelidando semanalmente o presidente de anta.
 
Até humoristas que se orgulham de ser politicamente incorretos, sobretudo com o mais vulnerável, vêm emplacando programas próprios na telinha.
 
Se alguém ainda tinha dúvidas, elas estão sendo dissipadas: o reacionário está definitivamente na moda.
 
Não há veículo da grande imprensa que não tenha hoje um ou mais comentaristas dispostos a tirar o espectador da ‘zona de conforto’, e destilar o mais profundo catastrofismo, enquanto estimulam a ira e desprezam a dignidade humana em nome de uma hipotética Constituição de um único artigo: a liberdade de expressão absoluta.
 
Tamanha reação do conservadorismo extremo, pelos novos ícones da classe média, poderia indicar que, de alguma forma, o país anda no caminho certo. 
 
Nenhuma redução de desigualdade, seja ela econômica, social, racial, de gênero ou orientação sexual, passa incólume à reação. Tradição e privilégios jamais se rendem sem resistência.
 
Mas há dois componentes neste jogo que complicam a equação e nos aproximam da intolerância.
 
Primeiro, o fato de que o catastrofismo sem limites, o derrotismo por princípio e o esforço de detonar o Estado de todas as formas e sob todas as forças, produz uma inequívoca sensação de que estamos sempre à beira do abismo. Mesmo quando evoluímos.
 
A estabilidade política é desprezada, sufocada pela ideia que resume toda política em corrupção –mas que, inexplicavelmente, considera o corruptor apenas uma vítima do sistema que patrocina.
 
Todo mal reside nos políticos, nos partidos, enfim no Estado –nunca no mercado ou nos mercadores.
 
A maior autonomia dos órgãos de investigação e a independência dos operadores do direito, somadas ao fim da censura, têm ligação direta com esse mal-estar da liberdade: a democracia não é pior porque produz mais monstros, apenas mais incômoda porque é impossível escondê-los.
 
O derrotismo desproporcional, que remete toda e qualquer política à vala comum, acaba por conferir a violência foros de alternativa.
 
A criminalização da política é, assim, uma poderosa vitamina da intolerância. E seus responsáveis são justamente aqueles que mais bradam contra a violência que ao mesmo tempo estimulam.
 
Mas não é só.
 
A política também tem perdido seu prestígio por estar sendo sepultada pelo fator eleitoral. 
 
O pragmatismo sem freios destroça ideologias, pensamentos e valores e é um consistente obstáculo ao avanço civilizatório. Quando o poder é mais relevante que a política, os fins sempre servem para justificar meios.
 
A rendição à pauta religiosa, de governos e oposições, é um sintomático reflexo desse excesso de pragmatismo que comprime o espaço republicano.
 
A submissão rala à pauta punitiva, que ameaça inserir o país na lógica de um Estado policial, é outro indício. Como o instrumento penal é sempre seletivo, mais repressão significará mais desigualdade. 
 
Esvaziar a política nunca é uma tarefa prudente, menos ainda quando o canto da sereia do reacionarismo está cada vez mais afinado.  
 
Há 50 anos, nossa democracia foi estuprada por militares que deram um golpe, civis que o financiaram e reacionários que o justificaram, inclusive e fortemente na imprensa. 
 
Que a efeméride, ao menos, nos mantenha vigilantes.
 
 
Mais do blogueiro no Sem Juízo ou pelo Twitter @marcelo_semer

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A nova cara da direita

Desde o fim da ditadura, a direita, envergonhada, vinha se escondendo em guetos de onde disparava seus ataques sem, no entanto, nenhuma exposição que pudesse identificá-los como militantes conservadores. Poucos animavam se assumir como direita.

No entanto, a explosão das redes sociais, com a possibilidade de exercitar sua militância no conforto da poltrona da sua sala, animaram os reacionários, que espalham suas ideias pela rede com rapidez e eficiência.

Alguns ícones do reacionarismo midiático como Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes, William Waak, Míriam Leitão, Arnaldo Jabor, Eliane Cantanhede, um tal Luiz Carlos Prates e até a insossa Rachel Sheherazade, se transformaram em verdadeiros ídolos dos neo reacionários. Servem de inspiração e fonte para os ataques a qualquer iniciativa que possa significar algum avanço social, cultural e humano.

Recentemente, a “jovem” apresentadora do SBT, Raquel Sheherazade, chegou a conceder uma entrevista com elogios às propostas de Marcos Feliciano e as posições de Reinaldo Azevedo (a quem chamou de fofo) além de se assumir como de direita. Seus comentários, pobres de conteúdo, ricos de preconceito e visceralmente reacionários servem de combustível para alguns fundamentalistas religiosos, recalcados políticos e hipócritas travestidos de revoltados, que exibem uma indignação seletiva e visivelmente parcial.

No manual dessa gente estão algumas agressões às conquistas sociais dos últimos anos, o racismo, a homofobia e o ódio, ingredientes que vão engrossando o caldo de uma onda fascista nas redes sociais.

Como todo discípulo de Goebbels, a âncora do SBT, seus colegas de imprensa e seguidores usam a mentira como principal arma no jogo político.

Com a proximidade da Copa do Mundo, estes arautos do falso moralismo se mobilizarão ainda mais, na perspectiva que um fracasso retumbante do evento possa significar o fim do ciclo de avanços sociais.

Não terão o menor pudor em marcar gols contra, mesmo que isso possa representar um significativo prejuízo para a imagem do país. Ignoram o evidente saldo positivo que a Copa está trazendo e trará ao Brasil, com a geração de empregos, as obras de mobilidade urbana, a atração de turistas estrangeiros e o consequente aumento na arrecadação de impostos, que poderão ser reinvestidos nas principais demandas populares.

Formando um contraponto a esse movimento conservador, alguns blogueiros progressistas transformaram a defesa dos avanços alcançados nos últimos anos em uma bandeira de luta. Liderados por jornalistas como Paulo Henrique Amorim, Luiz Carlos Azenha, Eduardo Guimarães, Nogueira Jr. Paulo Moreira Leite, Mino Carta, Altamiro Borges e intelectuais como Emir Sader e Leonardo Boff, construíram uma verdadeira trincheira no combate a enorme onda conservadora que se formou nas redes sociais.

Mas a esquerda militante das ruas ainda não descobriu a importância de ocupar as redes sociais e não se manifestam com a mesma intensidade dos reacionários.


O risco é que a onda provocada pelo extremismo de direita continue se propagando, vire um tsunami e comprometa as duras conquistas dos últimos anos.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Por que o beijo gay deve ser comemorado


Fabiano Amorim,  Diário do Centro do Mundo

Ontem foi um dia histórico. A Rede Globo, após tantos anos exibindo relacionamentos gays em suas novelas sem nunca mostrar um beijo explícito, finalmente exibiu a primeira cena de beijo entre dois homens.

A comemoração pelo país foi enorme.

No mesmo instante as redes sociais ferveram com fotos tiradas de aparelhos de TV, com o registro desse momento. Uma euforia tomou conta de muitos gays e héteros. Foi algo semelhante ao que sente um torcedor apaixonado quando seu time de futebol vence um campeonato.

Por que algo tão simples gera toda essa emoção em tantas pessoas?
É porque elas perceberam que foi vencida mais uma batalha da longa guerra contra o preconceito. Quando a maior rede de televisão finalmente mostra um beijo gay numanovela, isso significa que a aceitação aos homossexuais avançou um pouco mais.

Muitos estão dizendo: “Essa cena não vai fazer os gays serem menos discriminados nas ruas. Não vai mudar nada!”

Discordo.

Pequenos atos como esses são simbólicos. Quando vistos por milhões de pessoas ao mesmo tempo, várias delas passam a refletir sobre o assunto.

 Talvez passem a ver um relacionamento gay com outros olhos.

Durante a minha infância e adolescência, sempre que ouvia falar em gays, era no pior sentido possível. A palavra “gay” era um grande xingamento e ainda é para muitos.

Quando se tinha raiva de alguém, a palavra gay logo saía da boca como forma de atacar o cara de quem não se gostava. O repúdio a essas pessoas era total, sendo tolerados apenas na condição de bobos da corte, para rirmos deles.

Hoje claramente se nota uma mudança. Vemos alguém famoso fazendo uma declaração preconceituosa contra gays e recebendo uma avalanche de críticas de todos os lados, incluídos héteros. É maravilhoso que não seja mais tão bem aceito falar mal deles.

Alguns que criticam constantemente a Globo se irritaram com a empolgação sentida com a tão esperada cena do beijo, por pensarem que a exibição dessa cena só vai beneficiar a própria Globo, deixando-a mais forte.

Creio que isso não seja um motivo para o desânimo. Pior seria se o conservadorismo tivesse vencido mais essa batalha. A Globo  vai continuar sendo poderosa por muito tempo. Melhor que cresça através de atos positivos do que através de moralismos exagerados.

A luta da comunidade LGBT é a de muitas pessoas que sonham em serem tratadas da mesma forma que quaisquer héteros nos dias de hoje. É a luta de um grupo que não aguenta mais ter de esconder o que sente, o que pensa e o que faz.

Eles querem ter o direito de dar as mãos na rua, de se beijarem e se abraçarem, como qualquer outro casal, sem que sejam agredidos física ou verbalmente. Para quem vive tamanha opressão, qualquer passo na direção de uma maior aceitação ou tolerância da sociedade é de fundamental importância e será comemorado com a maior euforia.

O beijo entre Niko e Félix na novela das nove não é algo que deva ser enxergado como uma “vitória da Globo”. É principalmente uma vitória de todos na sociedade que lutam contra o preconceito."

Cáritas Diocesana de Paracatu lança edital para contratação de técnicos


A Cáritas de Paracatu lançou nesta sexta-feira (31/11), edital para contratação de técnicos de nível médio, com formação em técnicas agropecuárias ou agrícolas. O profissional vai trabalhar na equipe de ATES – Assessoria Técnica, Social e Ambiental em Unaí.

A entidade já vem desenvolvendo o projeto financiado pelo INCRA  no município de Unaí. A assistência técnica alcança 10 projetos de assentamento e já trouxe benefícios para mais de 500 famílias.

Serão contratados três técnicos com salário mensal de R$ 1.962,00, além de um seguro de vida. A jornada de trabalho é de 40 horas semanais.

Os interessados deverão acessar o edital na página da organização no facebook e enviar o currículo até o dia 09 de fevereiro. O endereço da Cáritas é rua do Ávila nr. 201 e o telefone é 38-36714421

https://www.facebook.com/caritasparacatu?ref=hl


Em Paracatu, mais de 300 famílias poderão ser beneficiadas pelo PNHR – Programa Nacional de Habitação Rural



O Programa Nacional de Habitação Rural – PNHR, integra o Programa Minha Casa Minha Vida e busca garantir subsídio financeiro para produção de moradia aos agricultores familiares e trabalhadores rurais com renda familiar anual de até R$ 60.000,00. Até o final do ano passado, quase 100.000 famílias no Brasil já haviam sido beneficiadas pelo programa.
O maior subsídio é concedido para as famílias do Grupo I, aqueles com renda familiar anual de até R$ 15.000,00. Do valor de R$28.500,00 (vinte e oito mil e quinhentos reais), disponível para produção das unidades habitacionais, o governo subsidia R$27.360,00, ou seja, o beneficiário paga apenas R$1.140,00 em 04 parcelas de R$285,00 (duzentos e oitenta e quatro reais) por ano.

Criado em 2009 pelo Presidente Lula, o Programa chegou a Paracatu em 2013 através da entidade organizadora Agência de Desenvolvimento Vale do Rio Paracatu, que a título de experiência está construindo 10 unidades habitacionais na região do Nolasco e já conta com mais de 322 famílias cadastradas para serem beneficiadas em diversas regiões rurais do município. Através da Vale do Paracatu, o programa está sendo ampliado para os municípios de Vazante, Riachinho e em conversa inicial em Bonfinópolis de Minas.

Segundo o produtor Lourival de Souza Oliveira, o programa melhora as condições de vida da família: “tem 35 anos que recebemos a terra como herança de minha sogra e ainda não tivemos condições de construir uma casa nova e o Programa vem para trazer conforto para a família”.


A atuação do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal no programa reforça ainda a importância dos bancos públicos na execução das políticas públicas que estão reduzindo a desigualdade e promovendo mais justiça social no país.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Marina e Eduardo Campos: a mistura de água e óleo


No final do ano passado a união dos dois ex-ministros do governo Lula gerou grande impacto no cenário político, prometendo mudar radicalmente o  quadro eleitoral.

Marina e Eduardo Campos sempre foram fiéis aliados de Lula, participaram e defenderam o governo nos momentos mais difíceis, inclusive no período do mensalão. Buscaram se credenciar para dar continuidade ao projeto iniciado pelo ex presidente, mas foram preteridos. Nenhum dos dois nunca ousaram criticar Lula, mas passaram a ser críticos do governo Dilma em momentos diferentes. Primeiro a Marina, que já vinha enfrentando duros embates com Dilma quando ainda eram colegas de ministério. Quando Lula escolheu Dilma para sucedê-lo, Marina preferiu buscar um caminho próprio. Eduardo Campos, por sua vez, apoiou a eleição de Dilma, mas sentindo que a promessa de apoio para 2018 não era consistente, preferiu também alçar voo próprio.

Com a tentativa frustrada de registrar o partido Marina viu na aliança com Campos a oportunidade de se manter como um dos principais atores na eleição. Campos viu na aliança com Marina a oportunidade de alavancar seu nome, surfando na boa popularidade da ex ministra.

Parecia um casamento perfeito, capaz de ameaçar a polarização PT-PSDB. Acontece que muitas vezes só se conhece realmente o parceiro depois do casamento. E é aí que a “porca torce o rabo”.

Marina e Eduardo Campos têm estilos e valores muito diferentes. Enquanto Marina prega e deseja uma “nova política”, uma maneira mais programática de estabelecer alianças e um discurso mais preservacionista que a afasta do agronegócio, o Eduardo Campos tem o mesmo pragmatismo que sempre marcou a política nacional. Eduardo Campos governou Pernambuco na base do toma lá dá cá, repetindo velhas práticas e vícios. Já vinha negociando com representantes do agronegócio, particularmente com setores da velha UDR e estava prestes a fechar alianças estaduais com forças reacionárias, explicitamente repudiadas por Marina e sua Rede.

O coerente veto de Marina a aliança já acertada do PSB com Alckmin em São Paulo parecia ser a última trombada entre a Rede e o partido do governador de Pernambuco. Prevalecendo esse veto, os “socialistas” esperavam que Marina já anunciasse a composição como vice na chapa de Campos e que as brigas “conjugais” tivessem um fim. Ocorre que agora, a Rede decidiu peitar também a aliança do PSB com o PSDB em Minas. Num esforço para tentar manter a coerência, a Rede divulgou nota afirmando a importância de acabar com o ciclo tucano tucano em Minas. Esse posicionamento da Rede pode reacender o pavio de uma relação que vem se desgastando rapidamente, pois o PSB dificilmente abrirá mão das tetas mineiras em nome da coerência. 

Embora Campos esteja caminhando a passos mais largos em direção aos tucanos do que em direção a Marina, é certo que os dois estão condenados a levar esse conturbado casamento até as eleições. Não há como nenhum dos dois voltar atrás. Dificilmente Marina encontrará uma maneira de não aceitar o posto de candidata a vice na chapa de Campos. Mas até que ponto essas graves e explícitas divergências dificultarão a decolagem do pernambucano? Eles conseguirão aparar suficientemente as arestas para se apresentarem como alternativa confiável ao país?

Por enquanto os dois mais parecem água e óleo, com visões e concepções completamente antagônicas e contraditórias. Ninguém até hoje conseguiu misturar essas duas substâncias, será que a política conseguirá essa proeza?

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Criticar gastos da Copa é importante, sabotá-la é crime

Porque a campanha “não vai ter Copa” é irresponsável?
Miguel do Rosário
turismo
O gráfico acima foi tirado de estudo da Fundação Getúlio Vargas em parceria com a consultoria Ernst & Young, cuja íntegra pode ser lida aqui.
Para me poupar o trabalho de resumir os números apresentados pelo estudo, transcrevo trecho de post de hoje de Eduardo Guimarães, do blog Cidadania, que já fez o serviço:
Estudo realizado pela Fundação Getúlio Vargas em parceria com a renomada empresa de consultoria Ernst & Young para o Ministério do Esporte em 2010 diz coisas muito diferentes das que vêm sendo ditas por esses embrulhões do movimento “Não vai ter Copa”.
Segundo o estudo, a Copa irá gerar R$ 183 bilhões de faturamento em um período de dez anos (de 2010 e até 2019) devido a impactos diretos – investimentos em infraestrutura, turismo, empregos, impostos, consumo – e indiretos – via circulação de todo esse dinheiro no país.
Somente em obras de infraestrutura, os investimentos deverão alcançar R$ 33 bilhões, entre estádios, mobilidade urbana, portos, aeroportos, telecomunicações, energia, segurança, saúde e hotelaria.
No turismo, os números apurados pela consultoria mostram que circularão 600 mil turistas estrangeiros e 3 milhões de turistas nacionais, aumentando em cerca de 50% o faturamento do turismo no país – de cerca de 6 para cerca de 9 bilhões de reais.
Somando empregos para trabalhadores permanentes e temporários, eles devem incrementar o PIB em R$ 47,9 bilhões.
Segundo a consultoria citada, “Os R$ 5 bilhões a serem injetados no consumo pela renda gerada por esses trabalhadores equivalerá a 1,3 ano de venda de geladeiras no Brasil ou 7,2 milhões de aparelhos”.
A expectativa é a de que a Copa crie mais de 700 mil empregos entre permanentes e temporários.
FGV e Ernst & Young ainda afirmaram que devem ser arrecadados “R$ 17 bilhões em impostos, o que representará mais de 30 vezes os R$ 500 milhões em isenções fiscais que serão concedidas à Federação Internacional de Futebol (Fifa) e empresas por ela contratadas para a realização do Mundial”.
Os tributos federais a ser arrecadados com a Copa deverão chegar a R$ 11 bilhões, deixando um saldo positivo de R$ 3,5 bilhões em relação aos investimentos federais na realização do campeonato.
Veja, leitor, o cálculo do faturamento total da Copa, segundo o estudo em tela:
“Os impactos indiretos da Copa na economia do país com a recirculação do dinheiro são calculados pelo estudo em R$ 136 bilhões, até 2019, cinco anos depois da Copa. Um impacto pós-Copa, impossível de dimensionar financeiramente transforma-se em turismo futuro. Além disso, as obras que modernizarão estádios nas 12 cidades-sedes também geram riqueza e impacto no PIB. Este valor, somado aos R$ 47 bilhões dos impactos diretos, leva aos R$ 183 bilhões que o estudo calcula que a Copa vai gerar para o país”.
Então, diante de gastos de cerca de 30 bilhões de reais para realizar a Copa de 2014 no Brasil, haverá um faturamento bruto de 183 bilhões de reais.
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sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Uma onda neonazista no Ocidente


Por Marcelo Hailer, na revista Fórum:

Nesta semana, o jogador da seleção da Croácia Josip Simunic foi banido pela Fifa e está fora da Copa do Mundo de 2014. O zagueiro, após a vitória sobre a Irlanda (em novembro), pegou o microfone e entoou cânticos nazistas com o apoio da torcida. A Fifa considerou inadequada a postura do atleta.

Porém, o caso do desportista não é um fato isolado, principalmente diante dos últimos ocorridos na Europa. No começo deste ano, Paris foi palco de uma manifestação contrária ao casamento igualitário, que reuniu cerca de 1,5 milhão de pessoas, porém, o presidente Hollande peitou os grupos conservadores e fez campanha pessoal pela aprovação do projeto, fato que ocorreu em maio.

Na Grécia, foram eleitos seis parlamentares do partido Aurora Dourada, assumidamente neonazista. Recentemente, o líder do partido, Nikos Mihaloliakos, foi preso acusado de fazer parte de um grupo clandestino neonazista envolvido em assassinatos e lavagem de dinheiro. Outros três parlamentares do Aurora Dourada foram presos sob a mesma acusação.

Mas não é apenas na Europa que os ideais eugenistas (base da ideologia nazista) ressurgem, nos EUA e Brasil também. Lá como cá, esses grupos estão organizados nos partidos políticos, nas assembleias e nos meios de comunicação. Os discursos são os mesmos: anti-políticas raciais, contrários a qualquer avanço na legislação no que diz respeito às LGBT e aborto e, principalmente, sobre políticas de drogas.

No Brasil, por exemplo, mais de uma vez, o deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP) declarou que a África é um “continente amaldiçoado” e que o líder Nelson Mandela implantou a “cultura de morte na África do Sul”. E os companheiros de bancada do pastor propagam a ideia de que homossexuais são doentes passíveis de cura. São pensamentos que lembram os eugenistas no século XIX. Com os ativistas do Tea Party norte-americano (ala radical do Partido Republicano) se dá o mesmo.

Com este cenário que se espalha por vários países, será possível afirmar que o Ocidente vive uma nova onda eugenista/neonazista? Para a socióloga e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Carla Cristina Garcia, não há dúvidas de que vivemos uma nova onda das teses que fundaram o nazismo. Garcia, que também coordena o núcleo de pesquisa sobre feminismo e sexualidades – Inanna – diz que é correto falar em nova onda, pois, as ideias que têm permeado o ideário conservador do Ocidente, nunca deixaram de existir, mas, neste momento, ganham nova força com a ascensão dos movimentos mais progressistas.

Nesta semana, um jogador da Croácia foi expulso da seleção por ter cantado cânticos nazistas ao fim de uma partida em novembro com o apoio da torcida; neste ano, membros do partido grego neonazista Aurora Dourada foram presos depois que investigação descobriu que eles faziam parte de uma quadrilha nazista; no Brasil setores sociais e políticos têm propagado o discurso de ódio contra LGBT, mulheres, aborto, droga… Pode-se dizer que o Ocidente vive uma nova onda eugenista?

Sem dúvida alguma vivemos uma nova onda do pensamento eugenista e é bom frisar o termo onda, pois a ideia, ou melhor, o ideal eugênico nunca desapareceu da sociedade ocidental.

Talvez seja importante lembrar que todas as teorias racistas modernas são fruto do pensamento eugenista, mais precisamente norte-americano, que desenvolveu um tipo específico de eugenia, conhecida como “eugenia negativa”: eliminação das futuras gerações de “geneticamente incapazes” – enfermos, racialmente indesejados e economicamente empobrecidos –, por meio de proibição marital, esterilização compulsória, eutanásia passiva e, em última análise, extermínio. O aumento no número de imigrantes no final do século XIX levou o grupo dominante no país, os protestantes cujos ancestrais eram oriundos do norte da Europa, a buscar motivos para exclusão. Encontraram terreno fértil na pseudociência da eugenia.

Os eugenistas usaram os últimos conhecimentos científicos para “provar” que a hereditariedade tinha papel-chave em gerar patologias sociais e doenças. Os imigrantes tornaram-se alvos fáceis de defensores dessa nova “ciência”, que empregaram os achados do movimento eugênico para construir a imagem dos imigrantes como pessoas deformadas, doentes e depravadas, encontrando eco em seus contemporâneos nas ciências sociais e na biologia, entre os quais a eugenia propagou-se como algo considerado perfeitamente lógico.

Esse retorno do discurso eugenista em vários países pode ser uma volta do discurso (se é que um dia ele já se foi) do Ocidente enquanto sujeito branco e familista?

Eu não chamaria de retorno do discurso eugenista, pois acredito que este nunca foi deixado de lado, todas as manifestações xenofóbicas por todo o mundo ocidental, o ódio ao estrangeiro propagado em muitos países europeus, além de exibir toda a questão do pensamento colonial, também demonstra claramente que xenofobia e eugenismo são frutos do mesmo tipo de pensamento eurocêntrico, branco e patriarcal.

Acompanhamos nos últimos meses o acirramento entre a bancada fundamentalista e os setores progressistas pró-LGBT, que terminou ontem com a vitória dos religiosos ao enterrarem o PLC 122 sob argumentos bíblicos. Por que é tão difícil se fazer aplicar o Estado Laico?

O problema aqui é muito mais complexo do que parece. Primeiro: há dois direitos individuais em conflito: o que assegura a liberdade religiosa e o que assegura a liberdade de consciência. As pessoas têm o direito de serem religiosas ou ateias, sem darem qualquer explicação. Acreditam ou deixam de acreditar como bem quiserem, e qualquer constrangimento a esses direitos é inconstitucional.

Segundo, o Estado é laico. Ser laico não significa ser ateu. Ser laico significa não tomar partido. Não cabe ao Estado defender essa ou aquela denominação ou agremiação religiosa, e tampouco cabe ao Estado pregar o ateísmo. Cabe ao Estado defender o direito das pessoas, individualmente, escolherem (ou não terem de escolher) se e no que acreditarem. Se alguém resolver acreditar no Coelhinho da Páscoa, cabe ao Estado laico defender tal direito.

Sobre aqueles que estão exercendo um cargo público são agentes do Estado. Logo, ele ou ela o representa perante a sociedade e, por isso, sua liberdade religiosa deve ser ainda mais resguardada enquanto estiver no exercício de sua função. Não há dúvida que ela pode rezar em casa ou no templo, independente de qual seja sua profissão. Mas, em sua vida política, ela é o Estado. E o Estado é laico. Como representante do Estado, ela não deve preferir (ou proferir) uma religião.

Além dos LGBTs, temos acompanhado o fortalecimento dos discursos contra indígenas, negros, usuários de drogas, mulheres e outros difamados. Na sua opinião, estes sujeitos, historicamente subalternizados, deixarão um dia a condição de sujeitos silenciados e difamados?

Há uma nova movimentação no mundo todo contra os abusos do capitalismo e do pensamento colonial. Acredito que a luta por direitos ainda está longe de acabar. Estas novas configurações dos movimentos sociais podem levar a um recrudescimento das forças conservadoras ou podem levar a outro tipo de organização social mais efetiva.